Guardare

A maior graça da natureza, e o maior perigo da graça, são os olhos. São duas luzes do corpo, são dois laços da alma. Mas como os mesmos olhos ou são os próprios, com que vemos, ou os alheios, com que somos vistos; questão pode ser não vulgar, e útil curiosidade, saber quais deles sejam o maior laço, e o maior perigo. Eu em tanta estreiteza de tempo não o tenho para disputar, e assim digo resolutamente, que o maior perigo, e o maior laço são os olhos alheios. E por quê? Porque sendo tão natural do homem o desejo de ver, o apetite de ser visto é muito maior. Considerava Jó a sua morte, e vede a espinha que mais lhe picava o coração. Nec aspiciet me visus hominis. Morrerei e não me verão mais os olhos dos homens. O uso de ver tem fim com a vida, o apetite de ser visto não acaba com a morte.  Esta foi a origem das estátuas Romanas sepulcrais. Punha-se a estátua e imagem do defunto sobre o sepulcro, para que o homem que dentro dele não podia ver, sobre ele fosse visto. Já que me falta a vida própria, ao menos não me falte a vista alheia. (…) Tão imortal é nos mortais o desejo de ser vistos! E se esta ambição, vive nos mortos, nos vivos que será? (…) Ninguém faz ocultamente coisa digna de valor  porque oculta não pode ser vista.  Tirai do mundo (diz Sêneca) os olhos alheios, e nada se fará do que o mesmo mundo admira, e preza…

Padre Antônio Vieira. In: Sermões

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