dor

Fora um dia de muita dor. Era ele quem doía nela. Tivera uma noite de insônia, pela manhã não conseguira se alimentar. A dor invadira os seus sentidos. Chorara muito. Ficou constrangida ao chegar ao local de trabalho e perceber seu rosto inchado. Mais tarde, numa lanchonete no centro da cidade, se esforçava para comer biscoitos com lágrimas no rosto; não tinha vergonha alguma de chorar na frente de estranhos. Ao sair da lanchonete, não sabia para onde ir, se sentia desorientada, sem lugar no mundo, não havia lugar onde quisesse estar. Terminou por se dirigir a uma igreja, no auge do seu desespero. Há muito tempo não entrava em igrejas, exceto, para ocasiões especiais. As duas últimas haviam sido para uma missa de 7º dia e um casamento. Sua fé era confusa, fraca, oscilante. Nos últimos tempos lhe parecia óbvio que Deus era uma invenção. Os humanos são fracos, precisam ter em quem se apoiar.  Chegara à Igreja e não sabia bem porque estava ali – Deus não era uma invenção? Logo não poderia ajudá-la. Mas ela estava desesperada, e pensou que se não ajudasse, mal não haveria de fazer. Procurava por alívio para aquela dor tão doída. Sentara no último banco da Igreja numa tentativa de passar despercebida e também pelo medo de encontrar algum conhecido. Logo se deu conta de que não sabia rezar, não sabia o que dizer, pensar, pedir. Olhara para o altar apenas. A Igreja é bonita, pensou. Ficara impressionada ao constatar tanto movimento na igreja àquela hora da tarde. O choro foi inevitável. Entregou-se ao choro, que evoluiu para soluços. Chorara chorara chorara. Pensou naquele que lhe causava tanta dor. Despertou a atenção de estranhos que a olhavam com um quê de piedade e de curiosidade, e se deixou ser olhada. Depois se concentrou na dor, na falta imensa daquele momento. Finalmente, conseguira esboçar uma reza ou seja lá que nome for. Pediu a Deus que a livrasse daquela dor, que conseguisse esquecê-lo, ou talvez não, mas, sobretudo, que não doesse tanto. Que lhe desse paz. Era só o que queria: paz. Agora estava mais calma.  Era hora de ir embora e ainda restavam algumas lágrimas. Ao sair da igreja, o dia claro e ensolarado contrastava com a tristeza de seu rosto. Pensara que um banho de mar lhe cairia muito bem naquele momento. Lavar a dor. Pensou na Bahia de Todos os Santos, em todos aqueles orixás e rituais que sempre lhe causavam certa curiosidade e desejo. Não tanto pela fé, mas porque achava bonito.

No dia seguinte, a tristeza ainda habitava aquele coração e seu rosto triste não passava despercebido entre os colegas. Cansada de tanta dor e como quem procurasse por um momento de respiro, ela soube rir do seu sofrimento. Agora, com um olhar distanciado, não pôde deixar de rir da cena na igreja, quando se entregou ao choro – lhe parecia uma cena especialmente ridícula e notoriamente histérica, mas não menos doída.

 

 

 

 

Fora um dia de dor. Era ele quem doía nela. Tivera uma noite de insônia, pela manhã não conseguira se alimentar. A dor invadira os seus sentidos. Chorara muito. Ficou constrangida ao chegar ao local de trabalho e perceber seu rosto inchado. Mais tarde, numa lanchonete no centro da cidade, se esforçava para comer biscoitos com lágrimas no rosto; não tinha vergonha alguma de chorar na frente de estranhos. Ao sair da lanchonete, não sabia para onde ir, se sentia desorientada, sem lugar no mundo, não havia lugar onde quisesse estar. Terminou por se dirigir a uma igreja, no auge do seu desespero. Há muito tempo não entrava em igrejas, exceto para ocasiões especiais. As duas últimas haviam sido para uma missa de 7º dia e um casamento. Sua fé era confusa, fraca, oscilante. Nos últimos tempos lhe parecia óbvio que Deus era uma invenção. Os humanos são fracos, precisam ter em quem se apoiar.  Chegara à Igreja e não sabia bem porque estava ali – Deus não era uma invenção? Logo não poderia ajudá-la. Mas ela estava desesperada, e pensou que se não ajudasse, mal não haveria de fazer. Procurava por alívio para aquela dor tão doída. Sentara no último banco da Igreja numa tentativa de passar despercebida e também pelo medo de encontrar algum conhecido. Logo se deu conta de que não sabia rezar, não sabia o que dizer, pensar, pedir. Olhara para o altar apenas. A Igreja é bonita, pensou. Ficara impressionada ao constatar tanto movimento na igreja àquela hora da tarde. O choro foi inevitável. Entregou-se ao choro, que evoluiu para soluços. Chorara chorara chorara. Pensou naquele que lhe causava tanta dor. Despertou a atenção de estranhos que a olhavam com um quê de piedade e de curiosidade e se deixou ser olhada. Depois se concentrou na dor, na falta imensa daquele momento. Finalmente conseguira esboçar uma reza ou seja lá que nome for. Pediu a Deus que a livrasse daquela dor, que conseguisse esquecê-lo, ou talvez não, mas, sobretudo, que não doesse tanto. Que lhe desse paz. Era só o que queria: paz. Agora estava mais calma.  Era hora de ir embora e ainda restavam algumas lágrimas. Ao sair da igreja, o dia claro e ensolarado contrastava com a tristeza de seu rosto. Pensara que um banho de mar lhe cairia muito bem naquele momento. Lavar a dor. Pensou na Bahia de Todos os Santos, em todos aqueles orixás e rituais que sempre lhe causavam certa curiosidade e desejo. Não tanto pela fé, mas porque achava bonito.

No dia seguinte, a tristeza ainda habitava aquele coração e seu rosto triste não passava despercebido entre os colegas. Cansada de tanta dor e como quem procurasse por um momento de respiro, ela soube rir do seu sofrimento. Agora, com um olhar distanciado, não pôde deixar de rir da cena na igreja, quando se entregou ao choro – lhe parecia uma cena especialmente ridícula e notoriamente histérica, mas não menos doída.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s