vingança

as duas lâminas de xangô eu quero. dentes afiados de um dinossauro. por que não? a mandíbula de um tubarão. o punhal de um cangaceiro. o focinho de um cão.

o olhar de um guará. certeiro. o veneno de uma cascavel. no peito. a armadura de arcabuzeiro. o pontapé de garrincha ao gol. a fuga de um beija-flor.

eu quero. os hormônios de Hércules. os neurônios de einstein. o ódio de cristo. o que for preciso. a paciência de jó. o laço do passarinheiro. sim. todos os tipos de nó.

o fogo. e o carvão. o poder da água. as armadilhas do coração. eu quero. são jorge e seu dragão. todas as forças comigo. meu amor. para quando você me deixar na mão.

marcelino freire. texto publicado em ossos do ofídio.

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Os kwiuvés

Catito e roliço, o kwiuvé é mais um gnomo das florestas brasileiras do Alto Goiás. Medindo em torno de vinte centímetros de altura, exibe contudo rotunda pança inteiramente pintada a urucum.

No lugar do sexo, os kwiuvés machos têm um dedo e as fêmeas, uma pequena boca sem dentes.

Quem nos descreve o gnomo índio é o antropólogo Sérgio Oliveira, que viveu muitos anos entre os kraôs, estudando seus usos e costumes – do modo como morrem aos modos de morrer, o que é outra (excitante) história.

Segundo Oliveira, nos rituais dos kraôs, acompanhados de intensa fumação da cannabis sativa, os kwiuvés se abraçam e se beijam, dedos e bocas, panças e seios com a delicadeza de bichos entretidos tão só e exclusivamente – toda a existência – nos jogos e mimos de amar.

wilson bueno-“jardim zoológico”, ed.iluminuras, 1999.